O reforço é frequentemente comparado ao suborno — uma comparação injusta que merece alguma atenção.
Ao comparar definições, é importante começar por compreender o que cada uma significa.
O reforço é definido como “um evento que, quando contingente a um comportamento, aumenta ou mantém a frequência desse mesmo comportamento” (Chance, 1998, p.99)1. Por outro lado, o suborno, do verbo “subornar”, é definido como “ato ou efeito de dar ou prometer bens, geralmente dinheiro, para conseguir algo ilegal ou condenável”2.
Com o suborno, o objetivo é beneficiar quem suborna; já o propósito do reforço é beneficiar a pessoa que está a ser reforçada — e não quem fornece o reforço.
Um aspeto importante a considerar é que o reforço (ou os itens usados como reforço) varia de pessoa para pessoa.
Um exemplo prático: quando o “vais para a rua” reforça o comportamento
Eis um exemplo: um aluno fala sem autorização durante a aula. O professor avisa-o de que, se continuar, será expulso da aula (o popular “vais para a rua”). O aluno repete o comportamento, é expulso e vai jogar futebol para o recreio.
Na aula seguinte, a mesma sequência repete-se: comportamento e consequência.
Sendo analista comportamental, olho para esta situação e levanto a hipótese de que ser expulso da sala é, para este aluno, um reforço. Não só está a escapar às tarefas escolares, como também tem acesso a tempo de lazer (jogar futebol).
Claro que a próxima pergunta é provavelmente: “Então o que fazemos?
Há várias estratégias possíveis, mas todas exigem observar a aula, o professor, os alunos e descobrir o que funciona como reforço para a turma toda (uma vez que o comportamento do professor e do aluno também afeta o resto dos colegas).
No sexto ano, eu tinha um professor de ciências que nos dava intervalos de 5 a 10 minutos (dentro da sala de aula) se nos portássemos bem durante 45 minutos.
Sempre que havia mau comportamento, ele retirava 1 minuto. Se o tempo chegasse a zero, quem se portasse mal receberia um recado para casa (na típica caderneta) para os pais assinarem e teria TPC extra.
Neste caso, o professor utilizava reforço e castigo. Mas, para que o castigo funcionasse, era necessário garantir que o aluno considerasse o recado e o trabalho extra como algo punitivo. Este professor não estava a subornar os alunos para se portarem bem — começava a aula a explicar as regras e as consequências de cada comportamento.
Reforço, motivação e itens preferidos
Voltando à diferença entre reforço e suborno — o que torna algo num reforço?
O reforço está intimamente ligado à motivação. Algo que ontem parecia apelativo pode não o ser hoje.
É por isso que em Análise do Comportamento (ABA), fazemos distinção entre reforço e item preferido.
Uma chávena de chá preto é um dos meus itens preferidos, mas não é um reforço suficiente para eu trabalhar gratuitamente. O ordenado é o nosso reforço para ir trabalhar, mas a motivação pode ser diversa — trabalhar numa área de que gostamos, pagar contas, sustentar a família, etc.
Se dissermos a um adulto que adora o seu trabalho: “Já não te posso pagar, mas preciso que continues a vir.”, estamos a remover o reforço e, provavelmente, parte da motivação para comparecer (a menos que não precise de dinheiro).
Isto não significa que as pessoas só se importem com o dinheiro, mas o rendimento é o meio através do qual acedemos a bens que satisfazem as nossas necessidades básicas — por exemplo, comida para saciar a fome ou renda para termos abrigo do frio e da chuva.
Portanto, o meu conselho aos pais é: da próxima vez que oferecerem “recompensas”, considerem se são realmente reforçadoras para o vosso filho e se o vosso objetivo é ajudá-lo a aprender comportamentos positivos e funcionais — ou se, na verdade, o fazem porque vos traz algum benefício pessoal (e não tem necessariamente vantagens para a criança).
Onde aprender mais
Se estiverem interessados, a Nature and Nurture está agora a lançar pequenos workshops que exploram a ABA e como esta pode ser aplicada no dia a dia.
Obrigada por lerem este artigo — espero que tenha sido útil.
1Chance, P. (1998). First course in applied behavior analysis. Brooks/Cole.
2https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/suborno?express=Suborno
Carla Oliveira