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Como saber se o meu filho precisa de apoio no desenvolvimento?

O desenvolvimento é um processo contínuo e complexo ao longo das nossas vidas, não se resumindo apenas a etapas específicas, sendo antes resultado das aprendizagens que vão ocorrendo e das competências que vamos adquirindo.

Para cada fase da nossa vida, usamos a palavra desenvolvimento com diferentes objetivos. Por exemplo, em crianças podemos falar do desenvolvimento da locomoção ou da fala, num adolescente podemos falar do seu desenvolvimento académico e, num adulto, no seu desenvolvimento profissional. É uma palavra que nos acompanha de forma constante e intemporal, e por isso é algo que merece toda a nossa atenção quando algo que é esperado desenvolver-se não ocorre ou ocorre de forma anómala. Temos também de ter em consideração que existem vários fatores que vão afetar o desenvolvimento do indivíduo, tais como fatores genéticos ou ambientais (por exemplo, uma criança pode ser mais estimulada numa área do que noutra), havendo assim um misto de influências entre o que já nasce com a criança e as suas vivências e explorações ao longo do crescimento.

Para compreendermos se o desenvolvimento está ou não a seguir o percurso esperado, temos primeiramente de entender o que é realmente expectável nas diferentes áreas e momentos do crescimento, o que é normalmente chamado de marco ou etapa no desenvolvimento.

O desenvolvimento divide-se em várias etapas, cada uma dessas etapas correspondendo a um intervalo de tempo em que é expectável que certas competências se desenvolvam. Ao mesmo tempo, engloba diferentes áreas do indivíduo. Estas etapas ocorrem sequencialmente e relacionam-se entre si; o desenvolvimento da linguagem, por exemplo, irá afetar o desenvolvimento de competências sociais.

Ao longo do crescimento, são analisadas as competências adquiridas pela criança nas várias áreas:

  • Motora – controlo dos movimentos corporais (levantar a cabeça, sentar, gatinhar, andar, etc)
  • Cognitiva – capacidade de pensar e resolver problemas
  • Linguagem e Comunicação – formas de comunicação que a criança usa para comunicar (contacto ocular, gestos, falar, etc)
  • Social e Emocional – envolve emoções e sentimentos da criança e a sua reação aos dos outros.

Segundo Piaget e a sua Teoria do Desenvolvimento Cognitivo, do nascimento até aos 18 meses (fase sensoriomotora) é esperado que, a nível motor, a criança desenvolva competências, tais como sentar e tentar agarrar objetos fora do alcance, e que inicie a locomoção; a nível da linguagem, é esperado que desenvolva ações corporais tais como chorar, apontar e que desenvolva o nomear (identificar), principalmente os cuidadores.

Na fase seguinte (pré-operatório), que decorre dos 18 meses até aos 6 anos, é esperado que a nível da linguagem consiga fazer frases completas, relacionar conceitos e ser facilmente compreendido. A nível motor, nesta fase, é esperado que a criança consiga escalar, correr, andar de triciclo, saltar, que haja um aumento da coordenação motora, etc.

Dos 6 aos 11 anos entramos numa fase Operacional, em que a criança deve ter uma linguagem mais desenvolvida, a nível verbal, de escrita e de leitura, e que consiga comunicar facilmente com os outros, havendo maiores interações sociais. Também a nível motor se espera maiores competências, principalmente que envolvam jogos e brincadeira de cooperação com os pares.

Numa última fase, dos 12 aos 17 anos, entramos no período da adolescência e neste deve haver capacidade de ter um pensamento abstrato e hipotético, raciocínio dedutivo e capacidade de planear e projetar ideias futuras.

Claro que as crianças não são iguais e não se desenvolvem de forma padronizada, e por isso não há apenas uma idade específica para cada fase, mas sim um intervalo de tempo definido. Neste intervalo de tempo, é esperado que as competências surjam e quando isso não ocorre poderá ser um primeiro sinal de alerta para os pais ou cuidadores estarem atentos a alguma necessidade especifica da criança em determinada área do seu desenvolvimento.

É também importante ter em conta algumas questões que vão surgindo e não se vão resolvendo com o passar das etapas, tais como a não aquisição das competências esperadas no intervalo de tempo padronizado, pouca reação a estímulos visuais ou sons, falta de contacto ocular, falta de interesse por pessoas ou objetos, dificuldades em manipular objetos de forma funcional, comportamentos repetitivos (balançar o corpo, repetir sons ou palavras), dificuldades de atenção, falta de coordenação motora (cair frequentemente, dificuldade em agarrar no lápis) e linguagem clara (dificuldades de comunicação, verbal ou gestual)e os comportamentos desproporcionais para a idade, por exemplo irritabilidade, angústias, ansiedade.

Conhecer as etapas ou marcos do desenvolvimento infantil é importante para pais, cuidadores e educadores poderem dar respostas perante situações que fujam do padrão de desenvolvimento expectável e iniciar uma intervenção o mais precocemente possível, de forma a ajudar a criança a evoluir em todo o seu potencial.

Inês Rebelo

Referências Bibliográficas

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