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5 Lições que Aprendi com Crianças

Quando comecei a trabalhar nesta área, acreditava que o meu papel, enquanto terapeuta, era apenas um — o de ensinar. Hoje sei que estava errada. Nenhuma das relações que criei com as crianças com quem trabalhei até hoje foi unidirecional…. Acontece que as crianças também nos ensinam — e, por vezes, ensinam-nos lições muito importantes. Só temos de estar abertos a aprender. Estas são algumas das lições que aprendi com elas.

  1. O desenvolvimento não acontece em linha reta.

Em terapia, há dias de pequenas conquistas, dias de grandes conquistas, dias de retrocessos e dias (muitos dias) em que, aparentemente, não acontece nada. O progresso das crianças não se vê apenas quando atingimos o objetivo final, mas também em todos os pequenos passos que damos até lá. O progresso não é linear — e está tudo bem.

2. Aprender também é falhar.

Ser perfeccionista costumava levar a esperar também perfeição das crianças com quem trabalhava. O feitiço virou-se contra o feiticeiro, porque se houve coisa que aprendi muito rapidamente, foi que pedir ajuda, errar e tentar novamente, gerir a frustração e recuperar após um momento difícil também são indicadores de aprendizagem. Aprendi que as crianças não são perfeitas; eu também não, e ainda bem.

3. O caminho faz-se caminhando.

Enquanto delineamos planos de intervenção com objetivos a longo prazo, pode ser fácil esquecer os pequenos passos que têm de ser dados até lá. Hoje, sempre que aquela criança conseguiu fazer um pedido novo sem ajuda, esperar mais um segundo, aproximar-se de uma palavra nova, tolerar melhor a frustração… Eu celebro! E faço questão de celebrar com elas. O progresso existe nos detalhes.

4. Chorar não é uma coisa má.

A tristeza, a raiva e a frustração são emoções tão válidas quanto a alegria e devem ser expressas. E se nós rimos quando estamos felizes, por que não haveríamos de chorar quando estamos tristes? Deixei de acreditar que uma sessão sem choro é mais válida ou produtiva do que uma com choro. Quando uma criança chora, há uma oportunidade de validar e trabalhar formas adequadas de manifestar o que está a sentir, bem como de ensinar estratégias que ela possa usar nesses momentos. Afinal, a dificuldade em regular as emoções é humana — e não só das crianças.

5. Dançar como se ninguém estivesse a ver.

As crianças encontram alegria com mais facilidade do que nós, e isso acontece porque ainda não se vêem pelos olhos dos outros. Quantas vezes já viu uma criança dançar, cantar, falar sozinha… sem sequer notar que está a ser observada? Com elas, aprendi que a felicidade está nas coisas pequenas e disparatadas: está em comer o melhor bolo de chocolate invisível, em cantar a música com a letra que inventámos, em fazer caretas ao espelho, em fazer o pino contra a parede só para ver o mundo ao contrário, em rodar até não conseguirmos andar em linha reta, em ver quem consegue soprar a bola de sabão maior. A vida é muito mais alegre quando temos momentos em que os olhos dos outros não existem — e é por isso que eu gosto tanto de trabalhar com crianças: elas deixam-me ser pateta e ainda vêm dançar comigo.

Podia continuar a escrever sobre tudo o que já aprendi ao longo de quinze anos como terapeuta infantil (quem sabe não chegasse para um livro?), mas talvez a maior lição seja esta: ensinar crianças é, na verdade, uma das formas mais bonitas de continuar a aprender.

Catarina Carrapiço

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