Estrutura ou ausência de horários: qual é o melhor caminho?
Existe um debate frequente sobre o que é mais benéfico para o desenvolvimento infantil: rotinas bem estruturadas ou a ausência total de horários. A verdade é que nenhum dos extremos funciona — e compreender isso é o primeiro passo.
Cada criança é única. Apesar de existirem padrões de comportamento, princípios comuns (como os de reforço e punição) e conceitos da ABA que se aplicam de forma geral, as respostas individuais à estrutura variam.
Tal como nem todos valorizam os mesmos reforços ou reagem da mesma forma a determinadas consequências, também nem todas as crianças respondem da mesma maneira às rotinas — ou à falta delas.
Crianças (e bebés) são pessoas, com preferências
Um exemplo frequentemente controverso é o sono dos bebés. Há quem defenda rotinas rígidas para a hora de dormir e quem prefira deixar os bebés seguir o seu próprio ritmo. Existem ainda pais que já tentaram “tudo” e continuam a enfrentar noites difíceis.
O ponto essencial é este: os bebés são pessoas. São únicos e têm preferências — mesmo que ainda não consigam expressá-las verbalmente. Um bebé pode estar a dormir a noite toda, mas quando atinge uma certa etapa de desenvolvimento, de repente, tudo o que estava a funcionar deixa de funcionar.
Rotinas excessivamente estruturadas podem rapidamente tornar-se uma fonte de stress. Quando sentimos que temos de cumprir um horário, aconteça o que acontecer, pais e crianças tornam-se prisioneiros da rotina.
Este tipo de abordagem transmite a ideia de que o plano deve ser seguido a qualquer custo, não deixando espaço para:
- espontaneidade;
- erros;
- adaptação;
- aprendizagem emocional quando algo não corre como previsto.
A ausência total de rotinas também tem custos
Por outro lado, não ter rotinas nenhumas pode ser igualmente prejudicial. As crianças precisam de estrutura para aprender:
- disciplina;
- sequências de ações (por exemplo, os passos para se prepararem para dormir);
- autonomia e independência.
Além disso, os limites ajudam as crianças a organizarem o seu tempo, a compreenderem a noção de ordem e a sentirem-se seguras no seu dia a dia.
Uma abordagem equilibrada e individualizada
A minha abordagem é ABA na sua essência: equilibrada, flexível e centrada na criança. Vale a pena perguntar:
- O que precisa o meu filho de aprender neste momento em termos de rotinas?
- Está numa fase em que deve aprender a preparar-se para dormir de forma mais autónoma?
- Precisa de aprender a organizar-se para ir para a escola?
Se a resposta for “sim”, então é importante identificar o que realmente importa nessas rotinas.
Ensinar estrutura… e também flexibilidade
Perguntas úteis a considerar:
- O tempo é um fator essencial nesta rotina?
- Há uma hora fixa para sair de casa ou para ir para a escola?
- A hora de deitar é sempre a mesma?
- Como ajudamos a criança a lidar com atrasos ou com a dificuldade em adormecer?
Estes exemplos mostram como é fundamental ensinar estrutura e flexibilidade em simultâneo.
Não são abordagens opostas — são duas faces da mesma moeda.
Uma reflexão final para os pais
Se sente ansiedade por não ter um horário definido, ou se sente preso(a) a um conjunto de tarefas que “têm” de acontecer a determinadas horas, pare um momento e reflita:
“Isto é realmente importante? Porquê? O que é que estou a ensinar ao meu filho?”
Muitas vezes, a resposta ajuda-nos a encontrar um equilíbrio mais saudável entre rotina e liberdade.
Onde aprender mais
Se o tema desperta curiosidade, explore!
Procure vídeos, workshops, livros, podcasts — há muito material acessível sobre ABA.
Caso sinta que é demasiada informação e queira começar devagar, a Nature and Nurture está a lançar workshops curtos que exploram como aplicar os princípios da ABA nas situações do dia a dia.
Obrigada por ler e por se interessar em compreender melhor o comportamento humano.
Carla Oliveira