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O que é a Análise Comportamental Aplicada (ABA) e como ajuda a minha criança?

ABA. 3 letras que soam como uma palavra – amada por uns, odiada por outros, bicho papão para muitos mais. Mas, afinal, o que é ABA?

A ABA (Análise Comportamental Aplicada) é uma ciência que aplica os princípios do comportamentalismo na prática e que tem como objetivo final a modificação comportamental. Isto significa que, na prática, vamos usar técnicas com base no comportamentalismo (como o reforço positivo) para aumentar, diminuir ou eliminar um comportamento, ou até para ensinar um comportamento que não consta de todo no repertório da pessoa com quem trabalhamos. Com frequência, estas técnicas são também práticas baseadas em evidências (isto é, práticas cuja eficácia tem validade científica comprovada).

Para compreender melhor o que é ABA, há segredos que tem de saber. Primeiro: ABA não é terapia. ABA é, efetivamente, uma ciência, já que implica a identificação e a manipulação de variáveis independentes (ex. Fatores ambientais) para obter resultados na variável dependente (comportamento a modificar). Com base nesta ciência e nestes princípios, existem muitas aplicações da ABA além da intervenção clínica. A ABA tem vindo a ser usada em contextos organizacionais (ex. Melhorar comportamentos de assiduidade), em contextos académicos (ex. Diminuir problemas de comportamento em sala de aula ou melhorar resultados académicos), com o propósito de alterar hábitos de saúde (ex. Alimentação e prática de exercício físico), com animais, em gerontologia. Portanto, quando ouve falar em terapia ABA, está, na verdade, a ouvir falar da aplicação desta ciência na prática clínica, frequentemente usada com pessoas com perturbações do desenvolvimento – mas ABA vai muito além disso.

Segundo segredo: tudo – TUDO – o que é diretamente observável é comportamento. Assim, quando falamos em intervenção comportamental, não estamos a falar de uma intervenção para ensinar alguém a comportar-se, mas sim de uma intervenção que pode visar a modificação (entenda-se o aumento, diminuição, extinção ou ensino) de comportamentos tão variados como competências académicas (fluência de leitura, cálculo mental, grafismos, resolução de problemas matemáticos…), comunicação (realizar pedidos recorrendo a CAA, formular frases mais completas, articulação, compreensão de instruções…), competências sociais (brincar, respeitar turnos de conversa, jogar à vez, iniciar uma interação, fazer comentários ou perguntas espontâneos…) ou regulação emocional (identificação de emoções em si próprio e nos outros, praticar técnicas de relaxamento, aprender comportamentos alternativos como pedir uma pausa antes de atingir o patamar da desregulação), entre muitos outros.

Terceiro segredo: todo o nosso comportamento é moldado por consequências (excluindo o nosso repertório inato – os comportamentos que não foram aprendidos e que são biologicamente determinados). Tudo o que nós fazemos tem como objetivo ganhar algo ou evitar algo, mesmo que não estejamos conscientes disso. Pense nos comportamentos que adotamos no dia-a-dia: conduzimos maioritariamente respeitando as regras de trânsito porque queremos evitar uma coima ou um acidente; trabalhamos porque queremos receber o ordenado no final do mês; não dançamos sozinhos no meio da rua porque queremos aprovação social… O que acontece, e a razão pela qual não nos comportamos todos exatamente da mesma forma, é que as consequências que valorizamos não são iguais para todos. Para uma pessoa a aprovação social pode ser mais reforçante do que para outra; para outras pessoas, o valor mais forte pode ser a sensação de poder; para outras ainda, evitar ser o centro das atenções pode controlar muito do seu comportamento. O que tem de compreender é que um reforço positivo só é forte se houve repetidamente associações positivas entre ele e um comportamento (ou vários) no passado. O que define o quão forte é um reforço ou uma punição para cada um de nós é, efetivamente, resultado do nosso historial, das experiências que tivemos ao longo da vida (e, sobretudo, na infância). Assim, parte do nosso trabalho enquanto analistas comportamentais é compreender, primeiro do que tudo, o que funciona como reforço para a pessoa com quem estamos a trabalhar – quais são as contingências que moldam o seu comportamento? Só assim podemos agir sobre elas e conseguir mudanças comportamentais desejadas e eficazes. E isto leva-nos ao segredo final – uma intervenção com base em ABA é (ou devia ser) altamente individualizada.

Em suma, a ABA não é uma receita mágica nem uma abordagem rígida: é uma lente através da qual podemos compreender o comportamento humano de forma precisa, prática e eficaz. Ao reconhecer que cada pessoa aprende de forma diferente e que o comportamento é moldado pelo ambiente, a ABA convida-nos a escutar com atenção o que os comportamentos dizem — não para os silenciar, mas para os transformar de forma significativa e respeitosa. É ciência, é personalização, e acima de tudo, é uma ferramenta poderosa para promover autonomia, bem-estar e mudança real.

Catarina Carrapiço

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